RODA DA VIDA

Oramos pela vida e saúde dos homens de Paz no Mundo, Homens e Mulheres com missões dificílimas, de dação de esperança e de forte influencia contra a corrupção que assola o mundo e o mantém cativo na desgraça da injustiça. Louvemos estes inspirados irmãos e irmãs, desde os mais influentes, como Francisco Pai da Igreja Católica, Dalai Lama Pai dos Budistas, e tantos outros em suas respectivas importâncias, que movem o mundo com a força de suas Almas devotas, num mundo melhor para todos, mais justo, onde os indefesos não estejam à mercê de nenhum tirano, onde o único exercito ou militar à face da terra seja a serviço do Amor ao Próximo
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quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Nosso verdadeiro lugar

Jesus era um educador de qualidades especiais. Ele não perdia oportunidade alguma para o ensino.Toda acção, palavra, feito que ocorresse onde Ele estivesse, era motivo de observações precisas. Como nosso Modelo e Guia, tinha plena consciência de que a vida é dada ao homem para o seu progresso. E todos os momentos na vida são oportunidades de crescimento.

Narra o Evangelista Lucas que, em dia de sábado, entrou Jesus na casa de um fariseu. O nome do fariseu não é mencionado, no entanto, o Mestre fora ali convidado à refeição.

Quando adentrou o local, foi observado pelos que lá se encontravam. Por Sua vez, observou Jesus que os convidados escolhiam os primeiros lugares, em quase atropelo. Todos desejavam ficar o mais próximo possível do anfitrião.

Recordemos que, ao tempo do Cristo, as refeições não eram realizadas em torno de uma mesa. Os convidados se acomodavam em poltronas, sofás que eram distribuídos pelo ambiente, em mais ou menos semicírculo. As refeições eram tomadas com o convidado meio reclinado, apoiando a cabeça sobre o braço esquerdo e servindo-se com a mão direita. Por isso, a grande disputa pelos lugares mais próximos ao dono da casa. Talvez porque desejassem ser vistos por ele, porque isso lhes constituiria um ponto a mais no relacionamento inter-pessoal, o que poderia ter valor para negociações de futuro. Talvez estivessem interessados em estar mais próximos para não perderem nenhuma das palavras que o anfitrião proferisse. Assim, poderiam participar do diálogo, tanto quanto teriam possibilidades de tudo avaliar. E, possivelmente, formular críticas mais tarde, sobre esse ou aquele ponto.

Relançando o olhar pela sala, Jesus tomou da palavra e propôs uma parábola, dizendo:

Quando fordes convidados para bodas, não tomeis o primeiro lugar, para que não suceda que, havendo entre os convidados uma pessoa mais considerada do que vós, aquele que vos haja convidado venha a dizer-vos:

Dai o vosso lugar a este.

E vos vejais constrangidos a ocupar, cheios de vergonha, o último lugar. Quando fordes convidados, ide colocar-vos no último lugar, a fim de que, quando aquele que vos convidou chegar, vos diga:

Meu amigo, venha mais para cima. Isso será para vós um motivo de glória, diante de todos os que estiverem convosco à mesa.

Porquanto todo aquele que se eleva será rebaixado e todo aquele que se abaixa será elevado.

As palavras de Jesus eram, primeiramente, uma lição de etiqueta. Porque ninguém que seja convidado para um banquete, deve ir se assentando onde bem queira. A etiqueta estabelece que se aguarde o direccionamento do mestre de cerimónias ou de quem às vezes lhe faça.

Era a exortação do Mestre, também, um ensino essencialmente voltado ao Espírito. Somente quem abriga em si a humildade, cresce de forma autêntica, progredindo. Não foi diversa a postura do Modelo e Guia da Humanidade que se credenciou como o servidor de todos. São Suas as palavras: Estou entre vós como aquele que serve.

Pensemos nisso: se o Senhor das estrelas, o Cristo, assim se posicionou, por que ainda nos magoamos tanto quando não recebemos as deferências dos homens?

Sirvamos sempre. Deus, que a tudo vê e tudo sabe, conhece exactamente o lugar onde precisamos estar.

Ele é a Justiça Suprema e nunca se engana.

Pensemos nisso e vivamos melhor, menos preocupados com o olhar dos homens. E mais atentos ao que o Senhor da Vida tem a ofertar a cada um de nós.

com base no cap. XIV, versículos 1, 7 a 11 do Evangelho de Lucas

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

A mulher sol

Não a conheço. Jamais a vira antes e, possivelmente, nesta cidade onde transitam milhares de pessoas, todos os dias, jamais tornarei a vê-la.

Ela transitava pela calçada, no sentido contrário ao da minha caminhada. O que me chamou a atenção foram seus cabelos de prata que admirei.

Seriam tingidos pelos dedos do tempo ou por produtos químicos?

Ao passar por mim, o rosto dela se iluminou, num sorriso aberto, espontâneo. Seus lábios se abriram e disseram com uma agradável entonação: Bom dia!

Senti uma vibração de paz invadir-me. Uma aura de harmonia abraçar-me. E, naquele átimo de segundo em que nos cruzamos, enquanto lhe respondia ao cumprimento, pude lhe ver o rosto.

As rugas haviam iniciado a desenhar arabescos em linhas suaves, denunciando o passar dos anos. Os olhos claros brilhavam na manhã ensolarada.

Gravei-lhe a expressão na memória.

Nestes dias de tanto atropelo, tanta pressa, em que as pessoas parecem correr como se desejassem recuperar minutos que já se foram, deparar com um rosto tão tranquilo, realmente, é inusitado.

Também encontrar alguém que deseje Bom dia! Com vontade, com sincero desejo de que seja um dia muito bom.

Nada mecânico. Nada convencional.

Continuei meu caminho quase num enlevo, envolvido nas vibrações harmônicas jorradas daquela expressão fisionômica tão serena.

Fiquei pensando em quantas pessoas ela haveria de encontrar em seu dia e para quantas a sua presença, o seu olhar, o seu sorriso ou o seu cumprimento fariam a grande diferença.

Como fizera comigo, em rápido segundo.

A quantas ela ofereceria aquele cumprimento tão especial. E não pude deixar de indagar a mim mesmo:

Terá ela saído de casa com esse propósito de iluminar as horas das pessoas que encontrasse? Ou aquilo lhe seria, simplesmente, a maneira natural de ser em sua vida?


Quantos de nós temos essa capacidade de beneficiar alguém com nossa presença? Capacidade para iluminar o dia, alegrar as horas de quem caminha ao nosso lado ou de quem, simplesmente, passa por nós.

Quantos de nós temos esse condão de tornar o dia de alguém muito diferente, melhor?

Transformar brumas em sol, nuvens em claridade, problemas em soluções.

Somente pode fazer sol quem tem raios de luz dentro de si.

Somente pode irradiar serenidade quem alcançou a harmonia interior, quem suplantou a si próprio e administra muito bem as dificuldades que se apresentam.

Alcançar esse estágio deveria ser uma meta para nós. Destoarmos no mundo. Sermos irradiadores do bem, do belo, das coisas positivas e grandiosas.

Para isso, basta-nos a vontade, o querer. Por isso, enquanto o dia canta esperanças, enquanto as horas se renovam, iniciemos nossa campanha particular, individual.

A campanha de fazer sol nas alheias vidas.

domingo, 24 de dezembro de 2017

A estrela do Natal

Naquela manhã, avó e neta carregavam diversos enfeites e diminutas lâmpadas coloridas. Chegara o esperado dia de enfeitar a árvore de Natal.

Aos poucos, o belo pinheiro foi se transformando: luzes cintilantes o iluminavam, bolas de cores variadas o adornavam e, no topo, uma estrela fulgurante arrematava a encantadora decoração.

Algumas horas depois, a árvore de Natal estava completamente enfeitada.

Vovó, eu gosto muito de decorar o pinheirinho de Natal com você! - Revelou a menina, aconchegando-se no colo da gentil senhora.

E eu gosto muito que você me ajude a fazer isso, minha filha, redarguiu a avó, sorrindo.

Mas você sabe, prosseguiu, é preciso também que enfeitemos o pinheirinho que todos temos dentro do coração.

Um pinheirinho dentro do coração? - Questionou a menina, sem compreender.

Sim, respondeu a avó. O Criador plantou no coração de cada um de nós um pinheirinho. É nossa responsabilidade enfeitá-lo, assim como enfeitamos a árvore que agora ilumina a nossa casa.

Mas, vovó, como podemos enfeitar o pinheirinho do coração?

Ora, minha filha, nós o enfeitamos com laços, bolas coloridas, luzes e até mesmo com uma estrela como esta, explicou a senhora, indicando a estrela que fora colocada, no topo da árvore, que ambas haviam enfeitado.

Mas como fazemos isso?

A avó abraçou a neta, correndo-lhe os dedos pelos cabelos, e respondeu:

Quando somos caridosos, quando perdoamos, quando amamos, criamos laços fraternos com aqueles que estão ao nosso redor.

São esses laços que enfeitam o pinheirinho que Deus plantou em nós.

Da mesma forma, a gentileza, o respeito, a humildade, a empatia, a generosidade, são as bolas coloridas com as quais enfeitamos a árvore do coração.

As luzes, prosseguiu a avó, são nossas orações. Todas as vezes que falamos com Deus, uma cintilante luz brilha em nosso interior, iluminando nosso caminho.

E a estrela, vovó? - Questionou a menina, olhos brilhantes, atenta à explicação.

A estrela é a fé. Fé que, quando cultivada, brilha no céu de nossas almas e transforma o choro e a tristeza em esperança.

E nos fortalece a vontade para continuar perseguindo nossos sonhos, até os vermos concretizados.

Abraçando a neta, a avó finalizou: Lembre que não há, minha filha, nenhuma estrela mais cintilante do que a fé e nenhuma luz mais brilhante que a oração.

*   *   *

A poetisa Cora Coralina escreveu certa vez: Enfeite a árvore de sua vida com guirlandas de gratidão.

Em sua lista de presentes, em cada caixinha embrulhe um pedacinho de amor, ternura, reconciliação, perdão!

No estoque do coração, a hora é agora!

Enfeite seu interior! Seja diferente! Seja reluzente!

*   *   *

Neste Natal, ofertemos para o desafeto, o perdão; para o oponente, a tolerância; para o próximo, o amor; para a criança, o exemplo; para o passado, a lição; para o presente, a oportunidade; para o futuro, a confiança; para nós mesmos, o nascimento de Jesus em nossos corações.

Feliz Natal para todos nós!

com base no poema Poesia de Natal, do livro Meu livro de cordel, de Cora Coralina, ed. Global.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

A mãe de Jesus

Ela crescera, tendo o Espírito alimentado pelas profecias de Israel.

Desde a meninice, quando acompanhava a mãe à fonte de água, para apanhar o líquido precioso, ouvia os comentários.

Entre as mulheres, sempre que se falava a respeito, perguntavam-se umas às outras, qual seria o momento e quem seria a felizarda, a mãe do aguardado Messias.

Nas noites povoadas de sonhos, era visitada por mensageiros que lhe falavam de que fazeres que ela guardava na intimidade d’alma.

Então, naquela madrugada, quase manhã do princípio da primavera, em Nazaré, uma voz a chamou: Miriam. Seu nome egípcio-hebraico, significa querida de Deus.

Ela despertou. Que estranha claridade era aquela em seu quarto? Não provinha da porta. Não era o sol, ainda envolto, àquela hora, no manto da noite quieta.

De quem era aquela silhueta? Que homem era aquele que ousava adentrar seu quarto?

Sou Gabriel, identifica-se, um dos mensageiros de Yaweh. Venho confirmar-te o que teu coração aguarda, de há muito.

Teu seio abrigará a glória de Israel. Conceberás e darás à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo e o Seu reino não terá fim.

Maria escuta. As palavras lhe chegam, repassadas de ternura e, pela sua mente transitam os dizeres proféticos.

Sente-se tão pequena para tão grande mister. Ser a mãe do Senhor. Ela balbucia: Eis aqui a escrava do Senhor. Cumpra-se em mim segundo a tua palavra.

O mensageiro se vai e ela aguarda. O Evangelista Lucas lhe registaria, anos mais tarde, o Cântico de glória, denominado Magnificat:

A minha alma glorifica o Senhor! E o meu Espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador!

Porque, volvendo o olhar à baixeza da Terra, para a minha baixeza e humildade atentou.

E eis, pois, que, desde agora, e por todos os tempos, todas as gerações me chamarão bem-aventurada!

Porque me fez grandes coisas o Poderoso e santo é o Seu nome!

E a Sua misericórdia se estende de geração em geração, sobre os que O temem. Com Seu braço valoroso, destruiu os soberbos, no pensamento de Seus corações.

Depôs dos tronos os poderosos e elevou os humildes. Encheu de bens os famintos e despediu vazios os ricos.

Cumpriu a palavra que deu a Abraão, recordando-se da promessa da Sua misericórdia!

Ela gerou um corpo para o ser mais perfeito que a Terra já recebeu. Seus seios O alimentaram nos meses primeiros. Banhou-O, agasalhou-O, segurou-O fortemente contra o peito mais de uma vez. E mais de uma vez, deverá ter pensado:

Filho meu, ouve meu coração batendo junto ao Teu. Dia chegará em que não te poderei furtar à sanha dos homens. Por ora, Amado meu, deixa-me guardar-te e proteger-te.


Ela lhe acompanhou o crescimento. Viu-O iniciar o Seu período de aprendizado com o Pai, que lhe ensinou os versículos iniciais da Torá, conforme as prescrições judaicas, embora guardasse a certeza de que o menino já sabia de tudo aquilo.

Na sinagoga, O viu destacar-se entre os outros meninos, e assombrar os doutores. O seu Jesus, seu filho, seu Senhor. Angustiou-se mais de uma vez, enquanto O contemplava a dormir. Que seria feito d´Ele?

Maria, mãe de Jesus. Mãe de todos nós. Mãe da Humanidade. Agradecemos-Te a dádiva que nos ofertaste e, ao ensejo do Natal, Te dizemos: Obrigado, mãe.

com base no cap. A mãe de Jesus, do livro Personagens da Boa Nova, de Maria Helena Marcon, ed. FEP.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Servo de todos

O mergulho de Jesus nos fluidos grosseiros do orbe terráqueo, é a história da redenção da própria humanidade, que sai das furnas do “eu”, para os altos píncaros da liberdade.

Vivendo os reinados de Augusto e Tibério, cujas vidas assinalaram com vigor inusitado a história, o Seu berço e o Seu túmulo marcaram indelevelmente os tempos.

Aceitando como berço o reduto humílimo de uma estrebaria, no momento significativo de um censo, elaborou, desde o primeiro momento, a profunda lição da humildade para inaugurar um reinado diferente entre as criaturas.

E não se afastou, jamais, da diretriz inicial assumida: a de servo de todos.

Jesus concedeu ao verbo servir um significado todo diferente        .

Como o maior de todos pôde fazer tal afirmativa? – Questionam os apressados.

Servo de todos? Colocar-se como um subalterno, uma pessoa menor, que apenas serve?

Ora, os grandes do mundo sempre foram servidos, e jamais servos de alguém!

E tal compreensão ainda é actual, infelizmente, no orbe terrestre: a de que aqueles que têm mais, intelectualmente, financeiramente, precisam ser servidos, e não servir.

Talvez, se compreendêssemos melhor a proposta milenar do Cristo, veríamos que estamos no caminho oposto à felicidade, quando assim pensamos.

É muito lógico pensar que, quem tem mais, pode e precisa dar mais; que aqueles que têm maiores condições na esfera da inteligência, devem colocá-la a serviço dos menos capacitados.

Essa é uma das propostas do Cristo, não só em Seu verbo, mas enraizada em Suas ações.

O Ser mais perfeito que esteve na face da Terra, esse Espírito que já alcançou os patamares evolutivos que todos almejamos, veio à Terra para servir!

Os grandes servem! Eis a lição clara, que precisa tomar espaço em nosso íntimo.

Não há humilhação alguma em servir, em ser servo! São os preconceitos da alma humana que criaram esta impressão falsa.

Assim, se queremos ser grandes, se desejamos construir uma felicidade madura, real, o caminho de servir é fundamentalmente seguro e necessário.

*   *   *

Quando se aproxima mais uma celebração do nascimento de Jesus na Terra, e temos ensejo de fazer balanços e avaliações em nosso viver, recordemos da lição do servir.

Estamos servindo à nossa família como poderíamos? Estamos servindo à sociedade de forma suficiente? Estamos servindo ao bem, de acordo com o potencial que temos?

Quem conhece as lições do Cristo, e Sua grandiosidade no que diz respeito ao poder de transformação do Espírito humano, já tem muito para dar, e pode ser servidor poderoso.

Servimos, toda vez que estendemos a mão a quem precisa.

Servimos, sempre que contribuímos para o sorriso dos outros, ao invés de provocar o choro amargo.

Servimos, toda vez que cumprimos com os deveres de pai, de mãe, de filho.

Servimos, sempre que escolhemos o bem, o entendimento, a conciliação, nas disputas inter-relacionais ao nosso redor.

Seja servo de todos e seja mais feliz.

com base no cap. Boas novas, do livro Primícias do Reino, pelo Espírito Amélia Rodrigues, psicografia de Divaldo Pereira Franco, ed. LEAL.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Gente precisa de gente

A senhora chegou ao consultório sozinha. Com suas sete décadas de vida, era totalmente independente.

No entanto, embora o aparente vigor físico, as faces se mostravam emurchecidas, como flor que perdera o viço das manhãs.

Iniciada a consulta, após a descrição dos pequenos males que a incomodavam, o médico decidiu ir mais fundo.

Por que um olhar tão apagado, como se os dias não tivessem mais brilho?

Por isso, de forma sutil, foi inquirindo a paciente, a fim de que lhe dissesse como transcorriam os seus dias, como era sua vida.

Ela era viúva, disse. O marido se fora há alguns anos. Ela morava só. Tivera cinco filhos.

Todos haviam cursado os bancos universitários e exerciam profissões com carreiras exitosas.

Quatro deles eram casados, tinham filhos. A mais jovem, no entanto, não se consorciara.

Preocupara-se em atender aos seus sonhos académicos e, perseguindo-os, deixara de lado o matrimónio. Morava em um pequeno apartamento e tinha, para lhe fazer companhia, um cachorro.

Entendia-se muito bem com ele, que a aguardava, toda noite, à porta, vigilante.

Era o momento em que ela descontraía, servia-lhe a refeição e conversava com ele, como se falasse a uma criança.

Aquilo até parecia estranho, dizia a senhora. Mas, então, marejando-lhe os olhos, confidenciou:

Vou lhe dizer uma coisa, doutor. Tenho netos de todos os filhos casados. Costumo visitá-los nos finais de semana, nos feriados, nos momentos em que sei que estão em casa.

Eu chego, vou logo anunciando: “Vovó chegou! Oi, criançada.”

Nenhum deles vem ao meu encontro. Se estão em frente à TV, não param de assistir ao que seja para me cumprimentar.

Se estão de olho no celular, continuam a digitar, a passar mensagens, a ler o que alguém distante lhes mandou.

É como se eu não existisse. E é sempre assim. Dói na alma, doutor. Nenhum sorriso, nenhum abraço, mesmo que eu me demore em suas casas.

Não largam do celular, não se afastam da TV.

Agora, eu lhe digo o seguinte: quando vou à casa da minha filha, basta que eu ponha os pés para dentro do apartamento, o cão corre ao meu encontro.

Ele salta, pula de alegria, me envolve as pernas com as suas patas como se fosse um abraço.

Sento-me à mesa para o café, o chá, uma conversa com minha menina. O cão deita aos meus pés e fica ali.

De vez em quando, ele roça suas patas em mim, como a dizer: “Oi, estou aqui.”

Pois é, doutor, até parece que o cão é o meu único neto. Dá para acreditar numa coisas dessas?


Todos desejamos ser amados. Todos precisamos de carinho, de atenção.

Quando a dor nos dilacerar a alma, quando nos sentirmos sós, quando desejarmos ardentemente que alguém nos abrace, não importarão os milhões de amigos que tenhamos em nosso Facebook, os que nos seguem no Twitter.

Ou as centenas de mensagens, fotos e vídeos que nos cheguem diariamente pelo Whatsapp.

Nada disso substitui um olhar de amor, uma carícia de ternura, um abraço envolvente.

Por isso, sirvamo-nos do que a tecnologia nos propicia mas não esqueçamos de que somos gente. E gente precisa de gente perto de si, de calor humano, de afago.

Pensemos nisso


sábado, 25 de novembro de 2017

Essência imortal

Um homem adquiriu uma casa antiga. Mais de um século de construção, mas bem conservada.
Contudo, logo que entrou na edificação, se deu conta de que muitos consertos eram necessários. Um detalhe aqui, outro ali.
E, com certeza, ela precisava de uma pintura nova. Por isso, ele decidiu retirar a tinta antiga e começou a raspar as paredes, a cor velha, um azul sujo e desbotado.

Para sua surpresa, na medida em que ia retirando a cor azul, foi aparecendo por baixo uma outra cor, rosa, mais velha do que a anterior.
Raspou tudo. Aí apareceu uma terceira camada de tinta, cor creme. Depois o branco.
Ele foi descobrindo que cada morador que por ali passara, pintara a casa da cor que lhe agradava, sempre cobrindo a anterior. Constatando isso, ele decidiu descobrir qual seria a cor original daquela velha casa. Obstinado, pacientemente, foi retirando camada por camada. Finalmente, quando acabou o seu trabalho, teve uma grande surpresa.


Mais bonita do que qualquer tinta, havia uma madeira linda, o maravilhoso pinho de riga, com nervuras formando arabescos cor castanha contra um fundo marfim. Ficou encantado e profundamente feliz – pinho de riga puro, sem nenhuma mão de tinta. Um tesouro para ser admirado.
Nós somos como a casa velha, com camadas e camadas de tintas de cores diversas.
Para cada ocasião, apresentamos uma das cores: o azul para os momentos de alegria, o rosa para aqueles serenos, harmoniosos, o vermelho para as horas turbulentas...
As pessoas, que privam do nosso quotidiano, nos conhecem de uma ou de outra forma, dependendo das horas que estejam connosco. Importante que nos autoconheçamos, que saibamos em profundidade dos nossos sentimentos, das nossas aspirações, dos nossos pensamentos.

Autoconhecimento. E, com um detalhe muito importante: saber que não somos um corpo que anda, fala, trabalha, executa tarefas, se locomove de um para outro lado.

Somos um Espírito imortal. Sim, o pinho de riga puro. A essência imortal. E esse Espírito imortal é quem sente, pensa, idealiza e conduz o corpo com todas suas camadas grossas ou finas de diferentes pinturas.

Definirmo-nos como ser humano integral é o que nos compete. Permitir que apareça, com toda sua beleza, esse pinho de riga puro, com seus arabescos maravilhosos.
Descobrir que precisamos retirar a camada rude da nossa indiferença para deixar que o fundo marfim do amor se apresente. Extravasar em acção nossa vontade de aprender, nosso intuito de melhorar, de apresentar o que tenhamos de melhor para esse mundo maravilhoso em que se movimenta o corpo que comandamos.

Com base no cap. 5, pt. 1, do livro Um céu numa flor silvestre, de Rubem Alves,

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Autoestima

Como o próprio nome sugere, auto-estima diz respeito a essa auto-avaliação, ao juízo que fazemos de nós mesmos e se, como resultado disso, sentimos-nos bem ou não connosco mesmos.

A auto-estima envolve o auto-respeito, a autoconfiança, a certeza do próprio valor, o bem-querer a si mesmo.

Normalmente, ouvimos os termos baixa autoestima e autoestima elevada, simbolizando os dois extremos bastante comuns.

A baixa autoestima é produto do Eu não valho nada; Não sou ninguém; Pior do que eu, só eu; num processo de desvalorização sistemática em grande parte das situações da vida.

São vítimas constantes, que não conseguem enxergar seu valor, que se desmerecem em toda e qualquer situação. Depreciam-se sempre que têm oportunidade.

Não toleram sua imagem no espelho, sua voz, sua fotografia. Nunca estão satisfeitas com seu corpo. Então, se escondem ou criam mecanismos de mascarar o que acreditam ser horrível mostrar.

Nas relações amorosas frustram-se facilmente, pois não se acham merecedoras do amor do outro e acabam por autoboicotarem-se ou mesmo sabotarem qualquer relacionamento que pareça saudável.

A segunda, a auto-estima elevada, fruto do Eu sou o máximo; Melhor do que eu, só eu! Um orgulho exacerbado, uma superioridade agressiva e que chega a extremos de provocar irritação nos outros.

Aparentam se amarem muito, porém, tudo fica nas aparências, pois querem mais parecer do que ser. Usam demais a palavra eu. Eu fiz, eu sei, eu fui. Falam de si, ouvem pouco.

Chegam a dizer ou pensar, muitas vezes: Eu não preciso de ninguém. Eu me basto.

Ambos os casos mostram claramente visões distorcidas da realidade. Os primeiros estão enfermos. E os segundos, também.

Qual o caminho, então, para se construir uma boa auto-estima?

Primeiro, o auto-conhecimento. Se em ambos os casos nos deparamos com visões falsas, deformadas do eu, é fundamental que tomemos consciência de quem realmente somos, e ainda, de como estamos actualmente em nossa caminhada evolutiva.

Tomemos consciência de nossa realidade, sem máscaras, sem distorções, sem reduções ou amplificações. Não sejamos cruéis nesta autoavaliação nem permissivos. Nenhum dos extremos nos serve.

Depois de conhecer um pouco melhor nosso real estado, passamos para o segundo estágio: a aceitação.

Precisamos nos aceitar como somos, ou melhor, como estamos, pois somos obra em movimento, em construção. Aceitemo-nos com nossas sombras, com nossas falhas, e não deixemos de perceber o quanto de luz emitimos.

Se em algum momento a autoavaliação está nos fazendo enxergar apenas sombras ou, no outro extremo, não vê-las, voltemos ao início e recomecemos o processo, pois a visão ainda está distorcida.

Somos uma coleção de conquistas, de histórias, de vitórias. As derrotas serviram para nos fazer aprender, nos deixar mais fortes e melhor vencer. Nunca nos deixemos medir apenas pelo que nos falta conseguir.

Uma boa auto-estima determina tudo em nossa vida: desde a disposição para acordar todo dia, passando pelo tipo de relação que construímos com os outros, que tipo de pessoas atraímos para nosso convívio, até a saúde de nosso corpo físico ao longo da existência terrestre.

Pensemos nisso.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Coragem de amar

Será que, para amar, é necessário ter coragem? A pergunta, a princípio, parece sem propósito. Afinal, é tão natural amarmos aos nossos filhos, ao companheiro, à esposa, que longe está a necessidade de se ter coragem para isso.

Porém, e se mudarmos a pergunta: para aprender a amar, é necessário ter coragem? Será que precisamos de coragem para aprender a amar aqueles que ainda não amamos?

Conta-se que Madre Teresa de Calcutá, ao abandonar o convento, onde actuava como professora de jovens de famílias ricas, levou consigo apenas o hábito e as sandálias de religiosa, deixando tudo para trás.

Ao final de sua existência, tinha mais de quatrocentas casas erguidas pelo mundo, em nome do seu amor ao próximo, entre asilos, orfanatos, hospitais, escolas.

Certa feita, ao ser homenageada em uma solenidade, um dos convidados interpelou-a dizendo não saber como ela dispunha de coragem para fazer tudo o que fazia. E ela, tranquilamente, respondeu que não entendia como tantas cabeças coroadas tinham coragem de não fazer nada, frente a tanta miséria no mundo.

Albert Schweitzer era um jovem músico, consagrado nas mais famosas salas de concerto europeias, quando decidiu abandonar a carreira musical e cursar medicina.

Sonhava ele ajudar o próximo e elegeu a carreira médica como ferramenta de auxílio.

Deixou o conforto da fama e do reconhecimento ao seu talento musical para começar uma nova vida. Ao se formar, foi trabalhar no coração da África, numa região isolada e sem recursos.

Ao final de sua existência, havia sido reconhecido com um prémio Nobel da Paz, e, em uma região onde nada havia, construiu um hospital que se expandira para mais de setenta prédios, com quinhentos leitos para internamento.

Não são poucos os exemplos que encontramos de pessoas que, com coragem, optam por amar àqueles que ainda não amam.

Jesus nos alerta que amar àqueles que nos são caros, até os maus o fazem. Porém é necessário ir além. É necessário aprender a amar àqueles que ainda temos dificuldades em amar, que ainda não aprendemos a amar.

Para esses, é necessário armar-se de coragem. Pois o amor ao próximo exige dedicação, esquecimento do orgulho, da vaidade, da presunção.

Podemos não ter a estrutura moral ou a coragem de Madre Teresa e de Albert Schweitzer, que deixaram marcas permanentes na História da Humanidade.

Mas já podemos deixar marcada a nossa presença, se nos decidirmos a amar ao próximo.

Podemos começar com o parente difícil, sempre disposto a fazer comentários e insinuações maldosas. Ou ainda com aquele vizinho sempre pronto a uma nova provocação.

Outras tantas vezes aprender a amar pode vir através da paciência que desenvolvemos diante das limitações de quem ainda não tem as mesmas capacidades que nós.

Ou que se mostra arrogante e pretensioso, com falsas capacidades que não possui.

Não há verdadeiramente um dia em nossa vida, onde não surja a oportunidade de aprender a amar.

Aprendamos com Jesus, Mestre Maior de todos nós, que não devemos nos contentar com o amor na intimidade do lar ou no relacionamento a dois.

Que possamos, a cada dia, armarmo-nos de coragem e exercitar o sentimento do amor ao próximo, na oportunidade que a vida nos oferecer.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Um pouco de compaixão

É verdade que algumas vezes nos irritamos com aquele que vem nos bater à porta de casa, nas horas mais inconvenientes, a nos pedir coisas. Acontece de nos incomodarmos com alguém que nos aborda na rua, a pedir um trocado, algo para comer, umas moedas. Às vezes, somos intolerantes com aquele que insiste em solicitar algo no sinaleiro, na calçada, cruzando nosso caminho nos momentos de maior pressa.

É comum julgarmos aquele que pede, o que estende a mão aguardando moedas, o que faz da esmola a fonte de sobrevivência. Fazemos análises rápidas, usamos de conclusões que se tornam chavões, e rotulamos essas criaturas. Poucas vezes reflectimos sobre o que teria levado essa ou aquela pessoa a essa situação de mendicidade.

Não encontramos tempo para outras análises e possibilidades para avaliar melhor a situação. Raramente nos colocamos em seu lugar, num exercício de empatia e compreensão.

Alguns ali estão porque se deixaram levar no roldão dos vícios, perdendo família, emprego, relações sociais. Outros viram o desemprego desestruturar sua vida, jogando-os à margem da sociedade, sem recursos para manter-se e manter aos seus. Outros trazem histórias de vida difíceis, de famílias complexas, sem terem tido acesso aos bancos escolares, impedindo que muitas oportunidades lhes surgissem no caminho.

Enfim, eles estão ali, vivenciando suas dores.

De um modo geral, pensamos que aquele que quer, que tem força de vontade, que se esforça, consegue superar toda e qualquer adversidade. Sim, pode ser verdade. Mas, nem sempre. É verdade para aqueles com resistência emocional, com estrutura intelectual, com um carácter mais forjado e sólido. Contudo, são muitos os frágeis, que sucumbem às próprias agruras, sem forças para se erguerem. Já pensamos, em algum momento, se nós seríamos fortes, bravos, corajosos, se revezes semelhantes nos alcançassem?

Se tivéssemos nascido num lar desestruturado, se tivéssemos nos deparado com a fome, a miséria, se não tivéssemos nenhuma referência positiva, conseguiríamos tudo superar?

Talvez se, em nossas reflexões, andarmos por essa via, ela nos ajude a termos um pouco de empatia. E, assim procedendo, colocando-nos no lugar desses que mendigam, possamos substituir, por um momento que seja, nosso julgamento apressado por um pouco de compaixão. Seria tão salutar se pudéssemos oferecer, a esses que passam por tantas dificuldades, um olhar de compaixão.

Com certeza lhes faria bem que os olhássemos no fundo dos olhos, como irmãos, que verdadeiramente são. Um sorriso, um olhar de compreensão, um aceno ou um cumprimento, podem mudar o seu dia.

Façamos esse exercício.

Esvaziemos um tanto nossos corações dos frios julgamentos que coleccionamos, para nos propormos a uma outra análise. Poderemos fazer isso um dia, outro dia, ao menos para uma pessoa. Será o início de um bom exercício, que poderá se desenvolver, em nossa intimidade, na sequência das semanas.


E, com certeza, fará muito bem a quem perdeu sua auto-estima, há muito tempo, ser olhado como um ser humano, alguém credor de um cumprimento, de um aceno, um sorriso.
Pensemos nisso.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

O que me encanta no mundo

O que me encanta no mundo é descobrir, a cada dia, que tenho muitas coisas mais a aprender e a vivenciar.

Inesgotável aprendizado.

Por mais extensa seja a vida humana e existem os que ultrapassam um século, é demasiado curta para conhecer todas as potencialidades deste nosso planeta.

Curta também para experienciar tudo o que ela pode proporcionar.

Quando olho para a diversidade das raças, cada qual com suas características específicas e o encanto que a mistura delas produz, me extasio.

Olhos negros, castanhos, azuis, verdes. Gente de pele negra com maravilhosos olhos verdes. Gente que traz o céu nos olhos e os raios do sol emoldurando-lhes as faces.

Gente de pele avermelhada, com todos seus rituais, crenças, adereços, homenageando seus ancestrais.

A riqueza da sua sabedoria medicinal que adentra a mata e traz nas mãos as ervas, as raízes para a cura de tantos males físicos.

Encanta-me o próprio ser humano, em si mesmo, em suas acções.

Comovo-me em verificar como há bondade e doação em sua alma. Basta um desastre natural para lhe atestar a solidariedade e compaixão.

Antes de ser convocado, ele corre a atender o seu próximo. Esquece a exaustão, a fome e se entrega no auxílio aos seus irmãos, durante horas e dias.

Comovo-me em constatar a extraordinária resistência de um bebé, que fica soterrado em escombros durante horas, é resgatado chorando, dizendo ao mundo: Eu sobrevivi! Eu nasci para vencer! Sou um guerreiro pela vida!

Encanta-me a criatividade humana, nas artes, na ciência. A genialidade das suas descobertas. A incansável busca do saber. O sonho de vencer as distâncias e alcançar as estrelas.
Criatividade que fotografa uma região inóspita, um imenso mundo de neve e gelo, registando o cuidado de Deus em cada detalhe.

Criatividade que traduz em sons o que a alma sente quando se extasia com um pôr de sol, um raio de luz, a chuva que cai fina, o mar que se ergue, revolto, gritando aos céus: Deus, ó Deus, acalma a fúria das minhas entranhas!

A criatividade na dança, na composição de cores e objectos em um cenário, na semeadura de um jardim, moldando arabescos entre o verde e a profusão das corolas abertas em alegria.

Encanto-me a cada vez que ouço as notícias da dedicação de pesquisadores, cientistas, fechados em seus laboratórios, imersos na criação de vacinas e medicamentos para atender a vida.

Encanta-me ouvir tantos brados pela paz, pelo bem, pelo amor.

Gente que nada tem e canta a esperança.

Gente portadora de necessidades especiais, que supera todas as expectativas e mostra que pode vencer, estudando, trabalhando, oferecendo seu próprio contributo à sociedade.

Gente! De todas as raças, de todos os credos. Almas criadas por Deus, revestidas de corpos esculturais, deficientes, pequenos, médios, grandes.

Almas de Deus! Meus irmãos!

Encanta-me, de forma peculiar, o ter a certeza de que ainda voltarei a este mundo, muitas e repetidas vezes.

E que, então, no suceder dos tempos, eu poderei usufruir de tantas descobertas que advirão, de tempos novos de entendimento entre as criaturas.


Serei criança outra vez, jovem idealista, homem maduro. Alma imortal, retornarei para tornar a me encantar com a vida, com o ser humano, com a incrível Criação Divina.